O hábito de beber água em abundância para nos mantermos hidratados e para que o organismo funcione corretamente é um dos conselhos mais recomendados pela ciência. Mas o que talvez não se fale tanto é quando e como devemos ingerir esse líquido essencial para nossa sobrevivência.
Entre os momentos mais comuns para beber água está a hora das refeições. Num gesto automático, nos sentamos para comer e enchemos o copo até ao topo. Mas o que nem todos podem saber é que este hábito tão comum pode não ser tão inocente quanto parece, pelo menos não nas quantidades e no momento em que o praticamos.
Marta León, engenheira química especializada em alimentação e saúde hormonal feminina, chamou a atenção para algo que muitos de nós fazemos sem pensar: beber grandes quantidades de água enquanto comemos.
Em uma recente participação no podcast "Tiene Sentido", apresentado pela jornalista Eli Romero, a especialista em microbiota foi categórica: “Beber muita água enquanto se come pode retardar a digestão”. Uma afirmação que, embora possa surpreender, tem sua lógica do ponto de vista de como funciona nosso sistema digestivo.
A explicação de Marta León é clara e tem a ver com o funcionamento básico do nosso estômago. Quando comemos, nosso corpo produz ácido clorídrico e outros sucos gástricos cuja função é decompor os alimentos para que possam ser absorvidos corretamente.
“Quando bebemos água, estamos diluindo essa acidez, estamos diluindo esses sucos gástricos”, explica León no podcast.
E aqui está o cerne da questão: quando diluímos excessivamente esses sucos gástricos, podemos chegar a uma situação de hipocloridria, que nada mais é do que baixa acidez estomacal.
O resultado é que “a digestão fica mais lenta, mais demorada e menos eficiente”, segundo a especialista. Isso faz com que os fragmentos de alimentos fermentem no intestino, gerando aquela sensação incômoda de inchaço, gases e mal-estar que muitos sentimos depois de comer.
A engenheira química não diz que devemos eliminar completamente a água de nossas refeições, mas sim moderar seu consumo durante a ingestão. Sua recomendação é beber apenas o suficiente para facilitar a passagem dos alimentos, sem exagerar com grandes quantidades que possam interferir no processo digestivo natural.
Este tema gerou certo debate na comunidade científica, e é importante colocar as coisas em perspectiva. De acordo com uma análise publicada pelo Colégio Oficial de Nutricionistas da Andaluzia, na Espanha, o estômago humano contém entre 20 e 100 ml de ácido clorídrico, e se bebermos um ou dois copos de água, o seu pH neutro pode aumentar momentaneamente o volume e reduzir a acidez.
Mas o efeito é passageiro: a própria mucosa gástrica compensa secretando mais ácido em poucos minutos.
Durante a refeição, recomenda-se beber pequenos goles conforme necessário para ajudar a engolir os alimentos, mas sem encher copos inteiros de uma só vez. E depois de comer, a água pode ajudar na absorção de nutrientes e na manutenção de uma hidratação adequada.
O que está claro é que a hidratação é fundamental. De modo geral, recomenda-se ingerir cerca de três litros diários de líquido para os homens e 2,2 litros para as mulheres, mas essa quantidade sempre deve ser verificada individualmente com um profissional de saúde de sua preferência. O truque está em distribuir essa ingestão ao longo do dia de forma equilibrada.
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